Existe um momento, no processo de autoconhecimento, em que percebemos que boa parte dos nossos comportamentos, escolhas e até das nossas dores não vêm do que vivemos hoje, mas daquilo que, em algum momento, não conseguimos sentir, elaborar ou compreender.
Alice Miller, nos lembra que “não podemos curar aquilo que não conseguimos sentir”. Essa frase vai além de uma reflexão: ela aponta um caminho. Curar não é apenas entender racionalmente o que aconteceu, mas permitir que nossa história, especialmente a emocional, seja reconhecida, sentida e validada.
Muitos de nós crescemos aprendendo a ser fortes, adaptados, agradáveis, responsáveis. Aprendemos a silenciar o choro, minimizar o medo, controlar a raiva e engolir a tristeza.
– Desenvolvemos competências, mas perdemos a sensibilidade.
– Ficamos bons em sobreviver, mas nos tornamos distantes de nós mesmos.
Na vida adulta, isso se revela de formas sutis, dificuldade de estabelecer vínculos profundos, sensação de vazio mesmo quando tudo parece bem, medo de falhar, necessidade constante de agradar, ansiedade ao lidar com rejeições ou conflitos. Nem sempre entendemos a origem, mas a sentimos no corpo, nas relações, no cotidiano.
A psicoterapia, nesse contexto, não é apenas um lugar de fala, mas um lugar de sentir. Um espaço seguro onde emoções congeladas encontram a possibilidade de existir. Onde podemos dizer, muitas vezes pela primeira vez, que algo doeu e nos feriu e assim, podemos ser acolhidos. Aprendemos que vulnerabilidade não é fraqueza, mas um caminho de cura e reconexão interna.
Porque só quando sentimos, podemos nos transformar.
Lembre-se que curar não é apagar o que vivemos é reconhecer nossa história e devolvê-la ao lugar que ela ocupa dentro de nós.
Referência: Miller, A. (1994). O drama da criança bem-dotada: Em busca do verdadeiro eu. São Paulo: Editora Summus.