Grande parte dos nossos medos e inseguranças não surgem do nada. Eles são derivados de experiências precoces nas quais nossas necessidades emocionais foram ignoradas, minimizadas ou mal compreendidas. Quando crianças, dependemos profundamente do olhar, da validação e da responsividade emocional do outro geralmente, nossos cuidadores. Quando esses vínculos falham, o que se constrói não é apenas frustração, mas uma sensação de desamparo, desvalor e medo de não ser amado (Winnicott, 1965; Bowlby, 1988).
O corpo e a mente carregam essas marcas, mesmo décadas depois. Como afirma Bessel van der Kolk (2014), “o corpo registra tudo”, armazenando experiências emocionais não integradas que continuam a se expressar nas relações, no trabalho, na autoestima, nos vínculos e nas escolhas. Muitas vezes, não entendemos por que reagimos com medo, bloqueio ou autossabotagem, mas essas respostas emocionais são ecos de histórias antigas, ainda vivas dentro de nós.
A psicoterapia não é um retorno ao passado para reviver dores, mas sim uma possibilidade adulta de revisitar essas experiências com cuidado e acolhimento. Trata-se de reorganizar, com consciência, aquilo que ficou bagunçado ou fragmentado. Viktor Frankl (1963) reforça que, ao atribuir sentido à nossa história, não apenas compreendemos quem somos, mas descobrimos quem ainda podemos nos tornar.
Por isso, compreender nossa história é justamente libertar o presente. É a oportunidade de responder a ele com autenticidade, consciência e liberdade, assim deixando de reagir com modos de enfrentamento baseado em antigas cicatrizes emocionais.
Entender nossa história é um ato de coragem e te permite uma linda transformação.
REFERÊNCIAS:
Winnicott, D. W. (1975). O Brincar e a Realidade. Rio de Janeiro: Imago.
Bowlby, J. (1989). Uma Base Segura: Aplicações Clínicas da Teoria do Apego. Porto Alegre: Artes Médicas.
Frankl, V. (2008). Em Busca de Sentido. Petrópolis: Vozes.
(Título original: Man’s Search for Meaning, 1963)
Van der Kolk, B. (2016). O Corpo Guarda as Marcas: Cérebro, Mente e Corpo na Cura do Trauma. São Paulo: Editora Vestígio.